Biobibliografia

1-8-1933 – Nascimento de António Augusto Rebordão e Cunha Navarro,  na freguesia de Aldoar, no Porto. Filho de António Augusto Valado Navarro e de Esmeralda Branca Rebordão e Cunha Navarro.

Na infância, vive numa rua próxima da Praça de Liège e frequenta a escola primária na Foz Velha.

O gosto pela escrita terá despertado na escola primária talvez “quando o professor anunciou ser minha a melhor redacção. Ou seria antes, quando a minha mãe me ensinava as primeiras letras pela cartilha de João de Deus? Ou bastante mais tarde, quando o meu saudoso professor de Literatura, Pe. Guimarães Dias me classificava sempre com os mesmos dezasseis valores? Quando o meu pai declamava Cesário e a minha mãe dizia «O Melro»? Quando li o «Só»? Quando, num papelinho envergonhado e secreto, escrevi o primeiro poema de amor? É difícil dizer. Talvez em cada um e em todos estes momentos. Talvez também em muitos outros.” (entrevista a José Jorge Letria, in JL, 17.08.1993)

1952As Três Meninas e Outros Poemas, Edições Augusto Navarro.

O volume de poemasé objecto de várias recensões, em publicações nacionais e internacionais.

O meu pai era escritor e a infância está cheia de livros, alguns coleccionados antes de eu nascer. Quando me aborrecia, não inventava distracções (era filho único) a minha mãe recomendava-me a leitura, dizendo-me que os livros eram os melhores amigos. Aos onze anos, editei um jornal infantil. Aos dezoito, o meu pai publicou-me o primeiro livro de poesia.” (entrevista a José Jorge Letria, in O Diário, suplemento Fim de Semana Cultural).

1953 – Secretaria a revista Bandarra – Revista Literária, dirigida pelo seu pai, Augusto Navarro, e que viria, em 1964, a extinguir-se, por determinação da Censura. Em 1956 subintitula-se “Artes Ibéricas” e possui como director em Espanha o poeta Gabino Alejandro Carriedo.

         Para o autor, a publicação desta revista, “mais o Teatro Experimental do Porto, os colóquios dos Fenianos, o cineclube, a revista de poesia «Notícias do Bloqueio», a «Árvore», desempenharam um papel de suma importância na vida da cidade” (in O Primeiro de Janeiro, 10.10.1989

Frequenta a Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Aí, entre outras actividades culturais, realizou adaptações de peças teatrais para a rádio.

Outro Caminho do Mar, volume de poesia, editado pela colecção Bandarra. 

1954 - Palavras aos Homens Vivos.

1955O Mundo Completo, poesia.

1956Os Animais Humildes (capa e desenhos de Maria Virgínia). Foi menção honrosa dos Jogos Florais da Queima das Fitas da Universidade de Coimbra.

Apresenta aos microfones da Rádio Alto Douro a revista radiofónica de literatura e arte Bandarra.

 

1957 - Integra a direcção literária de Notícias do Bloqueio, fascículos de poesia, ao lado de Egito Gonçalves, Daniel Filipe, Papiniano Carlos e Luís Veiga Leitão. A gráfica era de Álvaro A. Portugal e as xilogravuras de Altino Maia. Aí publica, em Dezembro, os poemas “Respiração”, “Estacionamento Proibido”, “Aviso” e “Poema de Aikichi Kuboyama”.

A peça O Ser Sepulto ganha o primeiro prémio na modalidade Drama em um Acto, do concurso de originais do teatro de Ensaio de Lisboa.

1958 - Poema para Anne Frank, Coimbra (separata da revista Vértice)

Até ao final da década de 50, colabora, com crítica e textos literários, com diversas publicações periódicas, como Ecos de Portugal, Vértice, Litoral, Seara Nova, Dom Quixote ou Suplemento Literário do Jornal de Notícias.

 

1959 – Morte do pai, Augusto Navarro.

1960 - O Dia Dentro da Noite (Edições Notícias do Bloqueio). Intensifica a actividade de crítica literária, em colaboração os suplementos literários do Jornal de Notícias e do Diário de Lisboa.  

1961 - Aqui e Agora, poesia.

1963 – Casa com Maria Virgínia Ramos Lima Rebordão Navarro.

1964 - Romagem a Creta: romance, Lisboa. O romance, dedicado à memória de seu pai, foi finalista do Prémio Internacional de Novela, Ateneo Arenyense, de Barcelona.

No mesmo ano, termina o curso de Direito na Universidade de Coimbra.

“Comecei a escrever romance numa altura em que não só era livre para o fazer, como ainda me sentia solicitado por essa forma de expressão. Com efeito, meu pai era também romancista e enquanto viveu eu não desejava cultivar o mesmo género literário.” (“Toda a arte é essencialmente dinâmica e todas as experiências lhe são necessárias”, Entrevista a Maria Rosa Colaço, in Confluência, Suplemento cultural de Notícias de Lourenço Marques)
Para o autor, “«Romagem a Creta» é a entrada nos labirintos da prosa. E constitui, de alguma forma, uma visão menos terna do mundo. Isso mesmo é denunciado por Gabriel, a personagem/narrador: os grandes sonhos dos vinte anos, o grande sonho de salvação do mundo através duma grande reforma social, duma total superação das estruturas económicas, de uma profunda modificação dos conceitos religiosos e, logo, através de um grande misticismo que, quatro ou oito dias depois, descambaria no agnosticismo ou num materialismo dialéctico, transformaram-se nesta indiferença magnífica de não querer salvar o mundo.»” (Entrevista a Vitorino Ventura, in Brétema, suplemento cultural do Jornal de Notícias, 25 de Agosto de 1988)

1970 - Um Infinito Silêncio, Lisboa. Recebe o Prémio Alves Redol, prémio literário cujo júri foi constituído por David Mourão-Ferreira, Eduardo Prado Coelho, Jacinto do Prado Coelho, Óscar Lopes, Eduardo Lourenço e José Palla e Carmo.

         “Ia avançando na leitura e três coisas progressivamente me prendiam: a aparente autenticidade duma experiência, a muito hábil composição e a modernidade da linguagem – tudo comandado por um raro sentido de equilíbrio, tudo a demonstrar uma vocação novelística insofismável e amadurecida.” (Jacinto do Prado Coelho, in Diário Popular, 21.01.1971)

         A atribuição do prémio Alves Redol, instituído pelo editor das Publicações Europa-América, Francisco Lyon de Castro, com o intuito de homenagear o ilustre escritor neo-realista, teve larga repercussão nos meios de comunicação social.

1971 – A editora Orfeu edita em disco alguns dos seus poemas, ditos pelo próprio.

         Redige, para o TEP, uma adaptação de Os Fidalgos da Casa Mourisca, de Júlio Dinis. 

1972 – Publicação de O Ser Sepulto, teatro.

O Discurso da Desordem. A obra fora apresentada na Casa da Carruagem, residência e galeria do pintor Jaime Isidoro, em Valadares.

“Há pessoas que se imiscuíram no romance e atribuíram papéis a pessoas. Tontice e vaidade de quem não soube ler. Originou-se uma feira de vaidades que só prejudicou o livro e não enalteceu as pessoas. Isso passou-se a nível do Porto, sobretudo. […] Na altura, o livro foi um escândalo, quiseram fazer-me um auto-de-fé, atingir-me fisicamente – o que não aconteceu só por acaso.” (entrevista, in Jornal de Notícias, 9.11.1995.

1974Integra os corpos gerentes da Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto. 

1975 – Dirige a Biblioteca Municipal do Porto.

1978O Inverno, poesia. 

1981 – Integra a direcção da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto.

1982 - O Parque dos Lagartos, romance.

“«O Parque dos Lagartos» é um livro bastante diferente da restante obra, tanto anterior como posterior. E é diferente, desde logo, porque mais dialogada, quanto à restante obra se poderá dizer mais descritiva. É um romance de situação – a minha passagem pelo Hospital de Alcoitão, onde me apercebi do que era viver num estabelecimento hospitalar, após um acidente de viação. Não pretendi cair em sentimentalismos auto-piedosos, pelo que me distanciei do próprio drama; revelando apenas em testemunho, as palavras dos outros “invertebrados”, mais do que a descrição das suas dores. É, no entanto, uma obra que responde a uma inquirição: a do homem perante o corpo.” (Entrevista a Vitorino Ventura, in Brétema, suplemento cultural do Jornal de Notícias, 25 de Agosto de 1988)

Publica Domingos Pinho: o Sistema das Representações Simultâneas, ensaio. 

1983 – Para celebrar os trinta anos de vida literária, dezenas de escritores e artistas plásticos promovem um jantar de homenagem a António Rebordão Navarro. Entre outros, estiveram presentes Ângelo de Sousa, Luís Veiga Leitão, Bento da Cruz, Maria da Glória Padrão, Arnaldo Saraiva, Papiniano Carlos e Ramiro Teixeira.

1984 - Ler e Reler Kafka, s/l.

1985 - Mesopotâmia, romance, Lisboa. Prémio Internacional Miguel Torga, de 1984.

1988 - A Praça de Liège, romance, Lisboa. A obra foi galardoada com o Prémio Círculo de Leitores, cujo júri foi constituído por Fernanda Botelho, Fernando Assis Pacheco, José Viale Moutinho, Urbano Tavares Rodrigues e António Mega Ferreira.

Confessa que sempre o fascinaram “os microcosmos, com os seus peculiares mistérios, as suas perspectivas nem sempre captáveis, as suas múltiplas capacidades de reflectirem ou concentrarem mundivivências, sinais que os excedem” (entrevista a A. Almeida Mattos, in JL, 09.06.1992)

27 Poemas.

         Entre 1988 e 1989, publica, no Jornal de Notícias, as crónicas Estados Gerais.

1989 - Dante Exilado em Ravena, contos.

A Condição Reflexa: Poemas (1952-1982).

Desloca-se a Macau, no âmbito de um programa promovido pelo Instituto Cultural de Macau para incentivar a produção de obras de ficção sobre o território. 

1990 – Assume a direcção editorial da Lello & Irmão.

A revista Letras & Letras dedica-lhe, em Abril, um dossier especial, no qual participam conceituados escritores e críticos literários.

Estados Gerais (crónicas), Porto, Lello & Irmão. O volume colige cerca de uma centena de crónicas jornalísticas publicadas ao longo da segunda metade dos anos 80 no Jornal de Notícias. A apresentação pública decorreu na livraria Lello & Irmão e esteve a cargo de Salvato Trigo, que salientou “a dinamicidade irónica e o pendor moral da prosa de António Rebordão Navarro essa mesma autenticidade que o aparenta, por exemplo, a Eça de Queirós, e em que a língua se mostra em toda a sua máxima riqueza.

         Traduz, para o Seiva Trupe, História de um Cavalo, de Leon Tolstoi e Marathona, a partir do original de Ricardo Monti.

 

1992 - As Portas do Cerco, Macau.

“ «As Portas do cerco» é, propositadamente, um título ambíguo. Tanto se refere à fronteira do território com a China, no arco erguido em memória de Ferreira do Amaral, ao território propriamente dito que essas portas encerram, como, principalmente, a um local exíguo com uma só possível, mas difícil, saída por terra, um espaço gerando a claustrofobia, elevando as pessoas a sonharem com autoestradas e criando-lhes um desejo terrível de escapar, de se evadirem daquela «verdadeira prisão com homenagem», como, com propriedade, Camilo Pessanha definiu Macau.” (entrevista a A. Almeida Mattos, in JL, 09.06.1992).

         Coordena, com Orlando Neves, o volume Poetas escolhem poetas – colectânea de poesia portuguesa 1979/1990, editado no Porto, pela editora Lello & Irmão.

         Entre 1992 e 1993, colabora regularmente com o periódico Macau.

1993 - Redige uma versão de Macbeth a partir da tradução do texto de Shakespeare, para o Seiva Trupe.

         Edição de Foz do Douro. A Letra e o Lugar.

     Nos quarenta anos de vida literária, a Fundação Fernando Pessoa e a Associação Progresso da Foz promovem uma homenagem a António Rebordão Navarro, que integrou a edição daquela antologia de textos do autor sobre a Foz do Douro, com prefácio de Agustina Bessa-Luís.

1994 - Redige, para o Seiva Trupe o texto Curral, uma versão a partir do texto original de Franz Xaver Kroetz.

1995 - Parábola do Passeio Alegre.

Redige, para o Seiva Trupe a versão de Beijo no Asfalto, a partir do texto original de Nelson Rodrigues.

Sonho, Paixão, Mistério do Infante D. Henrique, seguida de O Ser Sepulto. Prefácio de Luiz Francisco Rebelo. Edição SPA/Publicações Dom Quixote, Lisboa.

O volume de duas peças em um acto integra a peça Sonho, paixão, mistério do Infante D. Henrique, redigido por encomenda do Ateneu Comercial do Porto, para a comemoração do sexto centenário do nascimento do Infante, e a reedição da peça O Ser Sepulto.

         Reedição de O Discurso da Desordem.

1996 – Segunda edição de A Praça de Liège.

1997 – Traduz, para o Seiva Trupe, A Secreta Obscenidade, de Marco António de La Parra, e Chá e Simpatia, de Robert A. Anderson. 

1998 – Redige a história do Teatro Seiva Trupe, em Episódios de um Percurso. Seiva Trupe. 25 anos de seiva e fruto.

Amêndoas, Doces, Venenos, romance, Porto. O romance resulta de dois anos de investigação sobre os elementos processuais de um crime que assombrou o Porto oitocentista: o julgamento de Vicente Urbino de Freitas, médico acusado de ter envenenado o seu jovem sobrinho. 

1999 – O romance As Portas do Cerco é traduzido para francês e neerlandês. Participa, na Bélgica, em várias iniciativas inseridas no lançamento dessas edições.

2000Todos os Tons da Penumbra

2001 – Morte da mulher, Maria Virgínia. No mesmo ano publica a obra elegíaca Romance com o Teu Nome.

2002 – É galardoado com o Prémio Seiva - Literatura. 

2004 - Estreia, no Brasil, de O Ser Sepulto, pela companhia 4comPalito.

Continua a colaborar com as iniciativas culturais da Associação “O Progresso da Foz”.

2005Longínquas Romãs e Alguns Animais Humildes, selecção e prefácio de Francisco Duarte Mangas. 

2007Juro que Sou Suspeito. O processo de Adultério de Camilo Castelo Branco. Conferência proferida no Restaurante Gilreu, em 28 de Dezembro de 2007, com apresentação do autor pelo poeta Albano Martins.

2008 – Reedição de Romagem a Creta e de 27 Poemas.

         Atribuição da Medalha de Honra da Sociedade Portuguesa de Autores.

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