António Augusto Rebordão e Cunha Navarro nasceu no Porto, em 1933. Formado em Direito pela Universidade de Coimbra, foi funcionário de uma Caixa de Previdência, delegado do Ministério Público e advogado. Foi director da Biblioteca Pública Municipal do Porto, integrou os corpos gerentes da Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto e da Sociedade Portuguesa de Autores, e foi director literário de uma editora. António Rebordão Navarro é um dos mais reconhecidos romancistas da literatura portuguesa contemporânea.

Dirigiu a revista Bandarra (1953-64), fundada pelo seu pai, o escritor Augusto Navarro, nas edições da qual editou as suas primeiras colectâneas de poesia, As Três Meninas e Outros Poemas (1952) e Outro Caminho do Mar (1953). Na mesma década, com Egito Gonçalves, Daniel Filipe, Papiniano Carlos, Luís Veiga Leitão e Ernâni Melo Viana, co-dirigiu a revista Notícias do Bloqueio (1957-1962), publicando nas edições desta última o volume de poesia O Dia Dentro da Noite. Inserida frequentemente no corpus poético de uma segunda geração neo-realista, incluída, por seu turno, de forma mais ampla, na Geração de 50, a poesia de António Rebordão Navarro, quase toda coligida no volume A Condição Reflexa (1990), inscreve-se numa intenção realista, especialmente atenta ao quotidiano urbano, às tragédias de seres anónimos, movida por um intuito de denúncia ou de chamada de atenção irónica que visa com frequência a indiferença do homem face ao seu semelhante. Paralelamente António Rebordão Navarro desenvolveu uma carreira original como ficcionista, numa abertura de temas e processos que o conduziu para a captação narrativa e satírica de atmosferas sociais, provincianas ou urbanas. Esse percurso foi assinalado, no seu início, pelos volumes Romagem a Creta (1964) e Um Infinito Silêncio (1970), onde ecoa existencialmente a estética do Novo Romance, a que se seguiria O Discurso da Desordem (1972), romance pautado por uma fuga aos moldes narrativos tradicionais, que se inscreve nos movimentos de reconfiguração estética e literária que despontaram nas décadas de 60 e 70. É a partir dos anos 80, nomeadamente com Mesopotâmia (1985, Prémio Internacional Miguel Torga), A Praça de Liège (1988, Prémio Literário Círculo de Leitores) e Parábola do Passeio Alegre que a ficção de António Rebordão Navarro firma alguns dos travejamentos que a distinguem no contexto da narrativa portuguesa contemporânea. Centrando-se desde então muito frequentemente na escrita de um sentimento do Porto que continua ser o do sentimento de um ocidental que neutralmente assiste à mudança dos tempos, ao devir dos habitantes da cidade, crismando palavras, expressões, objectos, ofícios, usos, crenças, costumes desaparecidos, o romancista fez renascer um Porto, sobretudo aquele que temporalmente se inscreve entre a República e os meados do século XX, em que se movimentam os antepassados próximos dos actuais descendentes da média burguesia e pequena nobreza liberal. Naquela trilogia bem como em O Parque dos Lagartos (1982), Portas do Cerco (1992), Amêndoas, Doces, Venenos (1998) ou Romance Com o Teu Nome (2004), pela qualidade plástica de uma expressão torrencial na sua sintaxe acumulativa; pela riqueza expressiva patenteada na capacidade de introduzir na escrita uma variedade lexical assinalável; pela apreensão de certos tipos sociais, seres moldados complexamente através da focalização interna; e, sobretudo, pelo milagre de reconstituir “vidas em lugar de fósseis”, António Rebordão Navarro detém sem dúvida o estatuto de um dos mais importantes romancistas portugueses da actualidade. É também autor do volume de crónicas Estados Gerais (1990), de textos críticos e ensaísticos e das peças O Ser Sepulto (1972) e Sonho, Paixão e Morte do Infante D. Henrique (1995).

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