A bibliografia ficcional de Agustina Bessa-Luís revolucionou a novelística portuguesa e constitui um marco fundamental na história da literatura contemporânea.

Ficcionista, autora dramática, cronista, autora de biografias romanceadas e de literatura infantil, Agustina Bessa-Luís nasceu em Vila Meã, Amarante. O Douro, onde viveu a sua infância e aonde, durante a adolescência, voltava durante as férias escolares, marcou indelevelmente o seu imaginário romanesco. Depois de viver em Coimbra durante três anos, fixou, a partir de 1950, residência no Porto, onde publicou o seu primeiro romance, os Super-Homens. Foi a publicação de A Sibila, obra distinguida com os prémios Delfim Guimarães, em 1953, e Eça de Queirós, no ano seguinte, que a consagrou como nome cimeiro da novelística contemporânea. Com efeito, logo em 1963, Eduardo Lourenço chamou a atenção para a mutação operada pela Sibila no panorama das letras nacionais, assinalando o ano da sua publicação como um marco histórico entre duas épocas literárias. O significado mais profundo dessa obra foi, segundo o crítico, “acaso, o de ter de novo imposto um mundo romanesco, insólito, veemente, estritamente pessoal, desarmante e tão profuso e rico, verdadeira floresta da memória, tão povoada e imprevisível como a vida, onde nada é esquecido e tudo transfigurado, mundo grave e inesquecível soberanamente indiferente à querela literária ideológica que durante quinze anos paralisara em grande medida a imaginação nacional. (cf. Eduardo Lourenço, O Canto do Signo. Existência e Literatura (1957-1993), Lisboa, Presença, 1994, p. 162). Com efeito a novelística agustiniana resolve alguns dos impasses do romance contemporâneo, entre os quais merecem destaque: a possibilidade de conciliação entre regionalismo e universalismo, ao encontrar na evocação do mundo rural e urbano um veio profundo para a análise das relações humanas e da relação do ser com a memória; a surpreendente anulação da oposição entre objectividade e subjectividade do narrador, pela intromissão de uma voz, a um tempo, omnipresente, constante, e “alheia a toda a complacência sentimental e como duplicada por uma olhar distanciador” (Eduardo Lourenço, op. cit., p. 161); a conciliação de um sentido social com uma dimensão mítica e trágica na construção das personagens; ou ainda a reformulação dos modos de representação da realidade, que, sem ser posta em causa, é subvertida na sua linearidade pelo movimento de evocação que impõe a descontinuidade e o permanente deslize do vivido para o não vivido, do real para o sobrenatural. Tendo merecido desde as suas primícias o reconhecimento de autores e críticos como José Régio, Óscar Lopes, Eugénio de Andrade, Vitorino Nemésio ou Jorge de Sena, a sua obra, ao longo de uma carreira que conta com mais de cinco dezenas de títulos, foi distinguida com os mais importantes prémios literários nacionais: Prémio Nacional de Novelística, em 1967; Prémio Ricardo Malheiros, em 1966 e em 1977; Prémio PEN Clube e D. Dinis, em 1980; Grande Prémio do Romance e da Novela da Associação Portuguesa de Escritores, em 1984; Prémio da Crítica, do Centro Português da Associação Internacional de Críticos Literários, 1993; Prémio União Latina, 1997; Prémio Camões, 2004.

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